"A logística reversa é processo de planejamento, implementação e controle do fluxo dos resíduos de pós-consumo e pós-venda e seu fluxo de informação do ponto de consumo até o ponto de origem, com o objetivo de recuperar valor ou realizar um descarte adequado. Desta forma, contribuindo para a consolidação do conceito de sustentabilidade no ambiente empresarial, apoiada nos conceitos de desenvolvimento ambiental, social e econômico. " (Patricia Guarnieri)



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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Entrevista com Patricia Guarnieri sobre Logística Reversa e PNRS para o Sustain Total 2011

A Sustain Total entrevistou Patrícia Guarnieri, que é mestre em Engenharia de Produção, professora, pesquisadora e autora do livro “Logística reversa: em busca do equilíbrio econômico e ambiental”. Patrícia é uma das palestrantes do Sustain Total 2011, evento que será realizado entre 5 e 7 de outubro, com o objetivo de discutir questões relacionadas à Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Uma dessas questões é a logística reversa, tema da entrevista.

SUSTAIN TOTAL: Em linhas gerais, como se dá o processo de logística reversa?

PG: A logística reversa operacionaliza o retorno dos bens de pós-consumo (final da vida útil), bem como os de pós-venda (com pouco ou nenhum uso) que são descartados pelos consumidores, de forma a buscar a revalorização destes bens na medida do possível, ou quando isso não é mais possível, destiná-los a locais ambientalmente adequados como aterros sanitários. Para isso são necessárias diversas atividades da logística direta, tais como: Coleta (transporte), triagem (separação dos resíduos), embalagem, estocagem e novamente o transporte, para algum dos canais reversos que podem ser: reciclagem, reuso, remanufatura, venda ao mercado secundário, incineração. 

SUSTAIN TOTAL: O que vai mudar com a implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos? Já houve avanços neste aniversário de um ano da aprovação da lei?

PG: Com a implementação efetiva da PNRS todos os envolvidos na geração de resíduos sólidos terão a responsabilidade compartilhada pelos resíduos, sejam estes fabricantes, comerciantes (varejistas/atacadistas), importadores, consumidores finais. Anteriormente não havia a obrigatoriedade da logística reversa, somente resoluções do CONAMA e ANVISA que tratavam de alguns resíduos, como por exemplo: pneus, pilhas e baterias, embalagens de agrotóxicos, resíduos hospitalares, etc. Com a PNRS efetivamente implementada qualquer um dos envolvidos na geração dos resíduos poderá ser responsabilizado e penalizado pelo descarte incorreto, o que requer das empresas a estruturação de canais reversos para o descarte correto de seus resíduos e também requer uma maior conscientização da população. 

Com certeza já houveram avanços, há uma campanha do MMA para conscientizar a população da separação do lixo para a coleta seletiva, há a movimentação de diversas associações de empresas buscando soluções, como é o caso da ABIPET (PET), ABIVIDRO (vidro), CEMPRE, que criou um comitê de resíduos eletrônicos e juntamente com o MMA está buscando soluções, entre outras. Cabe ressaltar que a constituição de acordos setoriais, que podem ser considerados parcerias entre empresas, associações e poder público, são essenciais para que a logística reversa seja viável economicamente e obtenha sucesso no retorno dos resíduos. 

SUSTAIN TOTAL: O alto custo é um entrave para adesão das indústrias? Além desta, há outras dificuldades?

PG: Na verdade o custo mais significativo na logística reversa é o custo de transporte dos resíduos, principalmente se considerarmos a coleta porta-a-porta, estes custos representam de acordo com o CLRB cerca de 60% de total dos custos. No entanto, é necessário que os gestores compreendam que a logística reversa também proporciona a geração de receitas e economias, o retorno desta atividade é percebido a longo prazo, pois inicialmente são necessários investimentos na estruturação do canal reverso antes da geração destas receitas, por este motivo se acredita que ela gera somente custos. Após um determinado período, se implementada de forma planejada, a logística reversa tende a proporcionar retorno econômico para as empresas que a adotam. Com relação às dificuldades, existe uma carência de sistemas de informação, sistemas de controle de custos e demais valores movimentados, falta de conscientização das empresas e também dos consumidores, falta de conhecimento da logística reversa, porém estas dificuldades podem ser superadas.

SUSTAIN TOTAL: E quanto às vantagens: quais os benefícios para os consumidores e para as empresas?

PG: Para as empresas podem ser ressaltados diversos benefícios, tais como: legal (atendimento à legislação); logístico (os resíduos deixam de ser considerados um gargalo); econômico (podem ser geradas receitas com a venda de resíduos, bem como obtidas economia com a compra de matéria-prima reciclada e com o reuso de determinados bens, além da geração de energia no caso da incineração); de imagem corporativa (as empresas ambientalmente responsáveis são bem vistas pelo mercado consumidor, que dá preferência a estas no momento do consumo); ambiental (a empresa contribui para a preservação do meio ambiente); competitivo (as empresas se diferenciam por oferecer serviços de logística reversa).

Para os consumidores, a estruturação de canais reversos possibilita que estes contribuam para a preservação do meio ambiente de forma mais efetiva, melhoria na qualidade de vida pela redução do lixo descartado incorretamente, maior nível de satisfação devido ao fato de as empresas oferecerem produtos mais "verdes". 

SUSTAIN TOTAL: Como os consumidores atuam no processo da logística reversa? Qual o nosso papel na responsabilidade compartilhada?

PG: Os consumidores podem atuar, primeiramente separando o lixo domiciliar de forma a possibilitar que o mesmo seja revalorizado por meio da reciclagem, upcycling, dowcycling ou remanufatura; devem também se informar se existem pontos de coleta específicos para resíduos que contém componentes tóxicos (eletroeletrônicos, lâmpadas, pilhas e baterias, lixo hospitalar, resíduos da construção civil, etc) e, principalmente, não descartar os resíduos em locais impróprios como lotes vagos, rios, córregos, etc. 

Com relação à responsabilidade compartilhada, os consumidores tem a responsabilidade de separar o lixo para a coleta seletiva e não efetuar o descarte de resíduos tóxicos em locais inadequados, a partir do momento que as empresas disponibilizarem os canais reversos, ou seja, os pontos de descarte adequados os consumidores devem descartar estes resíduos nestes locais, caso isso não seja cumprido podem também estar sujeitos a multas que variam de R$50,00 a R$500,00.



2 comentários:

  1. Prezada Patrícia,
    Olá!
    A reportagem é oportuna para compreendermos a responsabilidade dos governos,empresários,educadores e da sociedade que necessita da NATUREZA para sobreviver!..
    Felizmente, apesar do descaso e do desconhecimento que propicia o ANALFABETISMO AMBIENTAL entre cidadãos,notá-se a importância de democratizar informações sobre a COLETA SELETIVA DO LIXO NO BRASIL...(escola/empresa/hospital etc).
    Debater assuntos, que envolvem de fato a LEGISLAÇÃO AMBIENTAL é desafio para todos nós!..
    Parabéns pelo conhecimento e sabedoria que amenizam às"dores do meio ambiente"...
    Como educadora, acredito muito no diálogo participativo propiciado por especialistas da área ambiental!..(vamos popularizá-lo!..)
    Conte com minha parceria!
    Vou compartilhar dessa matéria na QUINTA-FEIRA no meu blog!!!(Chique e verde!!)
    Abraços verdes!..
    Atenciosamente/Luciana Ribeiro

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  2. Bom dia Luciana!
    Adorei o seu termo "analfabetismo ambiental", explica realmente muita coisa, muitas pessoas têm educação formal, porém são completamente "analfabetas", quando se trata de questões do meio ambiente, e neste sentido, é fundamental a educação ambiental, de crianças, jovens e principalmente adultos, porque sinceramente acredito que nossas crianças de hoje, são mais conscientes que seus pais e muitas vezes os ensinam a como proteger o meio ambiente. Mas, infelizmente exemplos errados em casa podem minar todo este trabalho de conscientização com as crianças por isso, concordo e apoio você! Vamos fomentar a discussão da legislação e de problemas e soluções ambientais!
    Agradeço a divulgação e também conte comigo!
    Gostaria muito de publicar algum artigo seu aqui no blog sobre educação ambiental, ficaria muito honrada!
    Saudações verdes!! Sucesso!

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